segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Organização do tempo, espaço e rotina

     O início do ano letivo é muito mais do que receber novas crianças numa sala. É o momento em que se olha em volta e se procura encontrar a melhor forma de transformar o espaço da sala, num novo espaço para as crianças.
     A sala deve acima de tudo refletir o trabalho feito com as crianças, como se ela própria fosse um grande caderno onde se vão escrevendo as aventuras de cada dia. Mas todas as histórias começam com um título… 
Algumas ideias que podem servir de base à estruturação da sala (Instrumentos de Regulação e Pilotagem):
  • Mapa de organização semanal
  • Mapa de presenças
  • Mapa do tempo
  • Mapa de aniversários
  • Mede crianças
  • Mapa de ocupação das áreas
  • Regras da sala
  • Identificação das áreas
Dividir a sala por áreas é estruturante para a criança pois permite que esta compreenda melhor a sua organização. É fundamental separar atividades umas das outras, mas é de igual importância criar espaços que incentivem a criança a determinada tarefa. As áreas devem ser sugeridas pelas crianças mediante orientação do adulto. É também importante que sejam as crianças a dizer quantos amigos podem estar ao mesmo tempo em cada área. Esta regra, de ouro, deve ser sempre cumprida, e por isso deve estar sinalizada em cada espaço. As Áreas poderão variar ao longo do ano de acordo com os interesses do grupo, podendo ainda ser criadas outras: leitura e escrita, matemática, experiências, consultório médico, etc.
            • Acolhimento
            • Biblioteca
            • Casinha/Jogo simbólico
            • Garagem e as construções
            • Jogos

A formação pessoal e social nos educadores de infância

"A Formação Pessoal e Social é uma área transversal, na medida em que todas as vivências diárias e todas as componentes curriculares podem e devem incutir nas crianças valores, os quais farão delas adultos conscientes, capazes e autónomos, resolvendo progressivamente determinadas situações que surgem ao longo da sua vida.
Nesta área pretende-se que a criança ao socializar com outras crianças e com os adultos que a rodeiam, ao mesmo tempo que é influenciada e cria a sua própria identidade, também ela troque experiências e influencie os que a rodeiam.
Ao ter noção do que é certo e errado, adquire noção dos seus direitos e das suas obrigações perante os outros e interioriza regras de conduta e de convívio em sociedade.
Esta área também engloba a autonomia na alimentação e na higiene, a forma como aprende a utilizar os espaços e os materiais que a rodeiam, valorizando os outros e tomando as suas próprias decisões.
Mas como podemos nós, educadores contribuir para um bom desenvolvimento nesta área? Aqui ficam algumas ideias:
  • Deixar a criança adquirir conhecimento através da sua própria ação, a aprendizagem ativa, ou seja, partindo dos seus interesses incentiva-a na descoberta, ao mesmo tempo que estimula a boa imagem que cria de si própria. Na prática pedagógica, a criança é o centro da aprendizagem, participando colaborando e manifestando os seus interesses, ao mesmo tempo que exercita a sua iniciativa e autonomia;
  • Favorecer o prazer que as crianças têm pela descoberta, pela pesquisa, através da qual realizam um conjunto de aprendizagens. Assim sendo, neste processo vão com certeza adquirir diversas competências e saberes;
  • Promover e apoiar as diversas atividades lúdicas, acompanhando jogos e brincadeiras, de acordo com as áreas de conteúdo numa perspetiva integrada. Devemos sempre valorizar os conhecimentos e conteúdos que as crianças já trazem e criar-lhes um ambiente estimulante e seguro, de forma a que se construam aprendizagens significativas.
Mas, a perspetiva da aprendizagem só é possível através do tempo, visto que no dia-a-dia as crianças necessitam de tempo para a ação, relação e descoberta de si próprias, assim como para a descoberta de todos os que a rodeiam.

Viver o Tempo
Cada criança é um ser único e individual e por isso cada uma delas tem o seu próprio ritmo de estruturação emocional, cognitivo e ainda social. Devemos por isso respeitar o ritmo de desenvolvimento de cada criança, pelo que a sua vivência do tempo é a melhor forma  para que ela se sinta única, valorizada e aceite.
A organização e sequência temporal deve comtemplar momentos de satisfação das necessidades, ao mesmo tempo que se cria uma rotina diária coerente. Assim sendo, e no seu dia-a-dia, a criança pode e deve ter oportunidade de comunicar, conversar, planear as atividades que deseja realizar, colocar em prática os seus objetivos, brincar no jardim, realizar momentos de higiene, alimentar-se e por fim descansar.
"As referência temporais são securizantes para a criança e servem como fundamento para a compreensão do tempo: passado, futuro; contexto diário, semanal, mensal, anual," In OCEPE (1997)
Esta rotina é fundamental pois baseia-se na repetição de atividades e ritmos, na organização espácio temporal da sala, ao mesmo tempo que desempenha importantes funções na configuração do contexto educativo.
A rotina é uma referência, pois assim que é apreendida dá à criança e ao educador uma enorme liberdade de ação. Na creche, a rotina tem um papel importante, visto que é através dela que a criança adquire segurança. Ela aprende a existência de fases e os seus nomes e, assim sendo, torna-se muito mais segura e dona do seu próprio tempo.
A rotina contribui ainda para o desenvolvimento da criança, pois através dela aprende a organizar-se, a ter conhecimento da realidade e ainda a utilizar a sua autonomia, tomando as suas próprias decisões. A rotina é também fundamental para o educador, na medida em que lhe permite uma melhor gestão do tempo, tendo a hipótese de ser flexível e dar liberdade de escolha e de ação à criança.
Nesta área de conteúdo muito se aprende e é através de atividades simples, como brincar na casinha ou realizar um jogo de encaixe, que se adquirem conteúdos tão importantes e fundamentais como partilha, companheirismo, trabalho de equipa, respeito e ainda autonomia.
A nós Educadores cabe então a tarefa de poder acompanhar as crianças nestas importantes descobertas que as conduzirão a um futuro com certeza muito mais autónomo e feliz."

Florêncio Dina, a  formação pessoal e social nos educadores de infância, Coisas de Criança, Nº 33, Setembro 2010.

sábado, 28 de julho de 2018

Áreas de Conteúdo - Área de Fomação Pessoal e Social - Convivência democrática e cidadania

    "Convivência democrática e cidadania 

    A vida no jardim de infância deverá organizar-se como um contexto de vida democrática, em que as crianças exercem o seu direito de participar, e em que a diferença de género, social, física, cognitiva, religiosa e étnica é aceite numa perspetiva de equidade, num processo educativo que contribui para uma maior igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, entre indivíduos de diferentes classes sociais, com capacidades diversas e de diferentes etnias. Esta diversidade é entendida como forma de educação intercultural, em que as diferentes maneiras de ser e de saber contribuem para o enriquecimento da vida do grupo, para dar sentido à aquisição de novos saberes e à compreensão de diferentes culturas. 
    A promoção de uma maior igualdade de género é, nomeadamente, um elemento fundamental da educação para a cidadania e da construção de uma verdadeira democracia. Lidar com as diferenças sem as transformar em desigualdades é um dos grandes desafios da educação na atualidade. Compete ao/à educador/a desenvolver uma ação intencional, que conduza a uma efetiva igualdade de oportunidades entre rapazes e raparigas, no processo de socialização experienciado no jardim de infância. 
    A vida em grupo implica confronto de opiniões e necessidade de resolver conflitos que suscitarão a necessidade de debate e de negociação, de modo a encontrar uma resolução mutuamente aceite pelos intervenientes. 
    Deste modo, a participação das crianças na vida do grupo permite-lhes tomar iniciativas e assumir responsabilidades, exprimir as suas opiniões e confrontá-las com as dos outros, numa primeira tomada de consciência de perspetivas e valores diferentes, que facilitam a compreensão do ponto de vista do outro e promovem atitudes de tolerância, compreensão e respeito pela diferença. 
    É neste contexto que se desenvolve a educação para a cidadania, enquanto formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres, em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo.
    A educação para a cidadania relaciona-se também com o desenvolvimento progressivo do espírito crítico face ao mundo que rodeia a criança, incluindo nomeadamente os diferentes meios de comunicação com que contacta no dia a dia.
    O respeito e a valorização pelo ambiente natural e social e pelo património paisagístico são ainda abordados na Formação Pessoal e Social, numa perspetiva de corresponsabilização do que é de todos no presente e tendo em conta o futuro. O desenvolvimento destes valores articula-se e concretiza-se através de aprendizagens realizadas noutras áreas e domínios, nomeadamente a Educação Artística e o Conhecimento do Mundo.

    Aprendizagens a promover: 
    ▪ Desenvolver o respeito pelo outro e pelas suas opiniões, numa atitude de partilha e de responsabilidade social.  ▪ Respeitar a diversidade e solidarizar-se com os outros.
    ▪ Desenvolver uma atitude crítica e interventiva relativamente ao que se passa no mundo que a rodeia.
   ▪ Conhecer e valorizar manifestações do património natural e cultural, reconhecendo a necessidade da sua preservação.

    Estas aprendizagens podem ser observadas, por exemplo, quando a criança:
    ▪ Espera pela sua vez na realização de jogos e na intervenção nos diálogos, dando oportunidades aos outros para intervirem.
    ▪ Contribui para a elaboração das regras de vida em grupo, reconhece a sua razão e necessidade e procura cumpri-las.
    ▪ É progressivamente capaz de resolver situações de conflito de forma autónoma, através do diálogo.
    ▪ Perante opiniões e perspetivas diferentes da sua, escuta, questiona e argumenta, procurando chegar a resoluções ou conclusões negociadas.
     ▪ Demonstra comportamentos de apoio e entreajuda, por iniciativa própria ou quando solicitado.
    ▪ Reconhece a diversidade de características e hábitos de outras pessoas e grupos, manifestando respeito por crianças e adultos, independentemente de diferenças físicas, de capacidades, de género, de etnia, de cultura, de religião ou outras.
    ▪ Reconhece que as diferenças contribuem para o enriquecimento da vida em sociedade, identificando esses contributos em situações do quotidiano.
    ▪ Aceita que meninos e meninas, homens e mulheres podem fazer as mesmas coisas em casa e fora de casa.
   ▪ Identifica no seu contexto social (grupo, comunidade) algumas formas de injustiça ou discriminação, (por motivos de etnia, género, estatuto social, de incapacidade ou outras), propondo ou reconhecendo formas de as resolver ou minorar.
    ▪ Conhece manifestações do património artístico cultural e paisagístico (local, regional, nacional e mundial), manifestando interesse e preocupando-se com a sua preservação.
    ▪ Desenvolve um sentido estético perante manifestações artísticas de diferentes tempos e culturas.
    ▪ Reconhece a importância do património natural, identifica algumas das ameaças à sua conservação e adota práticas “amigas” do ambiente.     ▪ Utiliza diferentes recursos tecnológicos, enquanto meios de conhecimento, de expressão e comunicação e conhece os cuidados a ter.
    ▪ …

    O/A educador/a promove estas aprendizagens quando, por exemplo:
    ▪ Organiza o ambiente educativo, de modo a que todos, independentemente do género, etnia, capacidade intelectual ou física, sintam que fazem parte do grupo e têm as mesmas oportunidades.
    ▪ Seleciona materiais e recursos que não veiculem estereótipos de género, cultura ou etnia.
    ▪ Dialoga com as crianças sobre o modo como perspetivam a diferença (de género, cultura, etnia, etc.), apoiando-as a compreender situações de injustiça ou discriminação e a propor soluções.
    ▪ Manifesta respeito pelas necessidades, sentimentos, opiniões, culturas e valores das crianças e adultos.
    ▪ Valoriza as diversidades culturais das crianças e das suas famílias.
    ▪ Incentiva a tomada de decisão individual e coletiva e a resolução de conflitos pelo diálogo.
    ▪ Escuta o que as crianças dizem, apoia a explicitação das suas opiniões e incentiva a sua participação ativa nas conversas.
    ▪ Conversa com as crianças sobre os programas de TV favoritos, estimulando o debate de perspetivas diferentes.
    ▪ Incentiva boas práticas de proteção da natureza e dos bens culturais.
    ▪ …"

Área de Conteúdo - Área de Formação Pessoal e Social - Consciência de si como aprendente

"Consciência de si como aprendente

     A construção da autonomia não passa apenas pela participação na organização social do grupo, mas está também presente no desenvolvimento do processo de aprendizagem, em que as crianças escolhem o que querem fazer, fazem propostas e colaboram nas propostas do/a educador/a e das outras crianças, cooperam na elaboração de projetos comuns, sendo assim envolvidas no planeamento e na avaliação da aprendizagem.
    O desenvolvimento da consciência de si como sujeito que aprende tem como ponto de partida o que as crianças sabem e faz sentido para elas, tendo o/a educador/a um papel essencial ao refletir com as crianças sobre o processo de aprendizagem - o modo como fizeram, que saberes consideram ter adquirido e como podem continuar a aprender -, valorizando os diversos modos de aprender.     Este processo é facilitado quando o/a educador/a dialoga com as crianças sobre o que estão a fazer, coloca questões e dá sugestões, dando oportunidade para que elaborem, retomem e revejam as suas ideias, envolvendo-se numa construção conjunta do pensamento.
    A participação no seu processo de aprendizagem, em que cada criança se vai apercebendo do que aprendeu, como aprendeu e como ultrapassou dificuldades, permite-lhe ir tomando consciência de si enquanto aprendente. Esta consciência promove a persistência, a autoconfiança e o gosto por aprender, para que progressivamente se vá tornando capaz de autorregular a sua aprendizagem, isto é, “aprenda a aprender”.
    A consciência de si como aprendente não é apenas individual, mas alarga-se e enriquece-se pela partilha das aprendizagens no grupo. Cabe ao/a educador/a apoiar as crianças a cooperarem entre si, a exporem as suas ideias e a debaterem a forma como fizeram e poderiam melhorar, a fim de que cada criança contribua para a aprendizagem de todos e tome também consciência de si como aprendente.
    Essa consciência, iniciada na educação pré-escolar, irá ajudar a criança a enfrentar os desafios que se lhe vão ser colocados posteriormente e ao longo da vida.

    Aprendizagens a promover:  
    ▪ Ser capaz de ensaiar diferentes estratégias para resolver as dificuldades e problemas que se lhe colocam. 
    ▪ Ser capaz de participar nas decisões sobre o seu processo de aprendizagem. 
    ▪  Cooperar com outros no processo de aprendizagem.

    Estas aprendizagens podem ser observadas, por exemplo, quando a criança:
    ▪ Manifesta curiosidade pelo mundo que a rodeia, formulando questões sobre o que observa.
    ▪ Revela interesse e gosto por aprender, usando no quotidiano as novas aprendizagens que vai realizando.
    ▪ Expressa as suas opiniões, preferências e apreciações críticas, indicando alguns critérios ou razões que as justificam.
    ▪ Contribui para o funcionamento e aprendizagem do grupo, fazendo propostas, colaborando na procura de soluções, partilhando ideias, perspetivas e saberes e reconhecendo o contributo dos outros.
    ▪ Participa na planificação de atividades e de projetos individuais e coletivos cada vez mais complexos, explicitando o que pretende fazer, tendo em conta as escolhas dos outros e contribuindo para a elaboração de planos comuns.
    ▪ Colabora em atividades de pequeno e grande grupo, cooperando no desenrolar do processo e na elaboração do produto final.
    ▪ É progressivamente capaz de explicitar e de partilhar com o/a educador/a e as outras crianças o que descobriu e aprendeu.
    ▪ Avalia, apreciando criticamente, os seus comportamentos, ações e trabalhos, bem como os dos colegas, dando e pedindo sugestões para melhorar.
    ▪ Expressa as suas ideias, para criar e recriar atividades, materiais e situações do quotidiano e para encontrar novas soluções para problemas que se colocam (na vida do grupo, na aprendizagem), com recurso a diferentes tipos de linguagem (oral, escrita, matemática e diferentes linguagens artísticas).
    ▪ …


    O/A educador/a promove estas aprendizagens quando, por exemplo:
    ▪ Estimula a curiosidade das crianças, chamando a atenção para o que as rodeia, e questiona as suas observações.
    ▪ Apoia as crianças a relacionar o que já sabem com o que aprendem de novo.
    ▪ Escuta o que as crianças têm para dizer, apoiando a explicitação das suas razões, chamando a atenção para a diversidade de opiniões, a importância de as respeitar, procurando articular os diferentes contributos, e ajudar o grupo a chegar a novas conclusões.
    ▪ Apoia as crianças a explicitarem o que vão fazer e como, e também a relatarem o que fizeram e como, envolvendo-as nos processos de planeamento, realização e avaliação (individual, a pares, em pequeno grupo e em grande grupo).
    ▪ Acompanha as experiências que as crianças realizam, proporcionando um diálogo interativo entre elas, e envolvendo-se nesse diálogo, colocando perguntas abertas e incentivando a explicitação das suas ideias, de modo a facilitar a construção conjunta do pensamento.
    ▪ Apoia a criatividade das crianças na procura de soluções para os problemas que se colocam na vida do grupo e nas diferentes áreas de conteúdo.
    ▪ …

Área de Conteúdo - Área de Formação Pessoal e Social - Independência e autonomia

    "Independência e autonomia 

    Adquirir maior independência significa, na educação pré-escolar, ser progressivamente capaz de cuidar de si e utilizar os materiais e instrumentos à sua disposição. A independência das crianças e do grupo passa também por uma apropriação do espaço e do tempo que constitui a base de uma progressiva autonomia. 
    A construção da autonomia envolve uma partilha de poder entre o/a educador/a e as crianças, que têm a possibilidade de fazer escolhas e tomar decisões, assumindo progressivamente responsabilidades pela sua segurança e bem-estar, não só no jardim de infância, mas também em diversas situações da vida, demonstrando progressivamente consciência dos perigos que pode correr e da importância de hábitos de vida saudável. 
    A construção dessa autonomia passa por uma organização social participada do grupo em que as regras, elaboradas e negociadas entre todos, são compreendidas pelas crianças, e em que cada uma se compromete a aceitá-las, conduzindo a uma autorregulação do comportamento. Esta autonomia passa igualmente pela decisão coletiva sobre as tarefas necessárias ao bom funcionamento do grupo e a sua distribuição equitativa. Esta participação da vida no grupo permite às crianças tomarem iniciativas e assumirem responsabilidades, de modo a promover valores democráticos, tais como a participação a justiça e a cooperação.

    Aprendizagens a promover: 
    ▪ Saber cuidar de si e responsabilizar-se pela sua segurança e bem-estar. 
    ▪ Ir adquirindo a capacidade de fazer escolhas, tomar decisões e assumir responsabilidades, tendo em conta o seu bem-estar e o dos outros.

    Estas aprendizagens podem ser observadas, por exemplo, quando a criança:
    ▪ Realiza de forma cada vez mais independente as tarefas indispensáveis à vida do dia a dia (vestir-se, despir-se, lavar-se, comer utilizando adequadamente os talheres, etc.).
    ▪ Conhece os materiais disponíveis, a sua localização e se apropria progressivamente da utilização de jogos, tintas, pincéis, lápis etc., servindo-se deles com cuidado e arrumando-os quando já não precisa.
    ▪ Conhece os diferentes momentos da rotina diária, a sua sucessão, o que faz em cada um deles e para quê.
    ▪ Escolhe as atividades que pretende realizar e vai adquirindo progressivamente maior autonomia na seleção dos recursos disponíveis para as levar a cabo, sem perturbar o grupo.
    ▪ Se encarrega das tarefas que se comprometeu realizar, executando-as de forma cada vez mais autónoma.
    ▪ Adquire um maior controlo do seu corpo, força, agilidade, equilíbrio e coordenação muscular que lhe permitem realizar progressivamente movimentos mais complexos e precisos (subir e descer escadas, trepar, encaixar, recortar, etc.).
    ▪ Conhece e compreende a importância de normas e hábitos de vida saudável e de higiene pessoal e vai procurando pô-los em prática (distingue os alimentos saudáveis e a sua importância para a saúde, porque é importante fazer regularmente exercício físico, porquê e quando é preciso lavar as mãos e os dentes, etc.).
    ▪ Tem consciência dos riscos físicos que pode correr e adota normas de segurança em casa, no jardim de infância e na rua (tem alguma consciência e cuidado em situações em que se pode magoar, pedindo ajuda quando necessita, conhece e cumpre os cuidados a atravessar ruas, identifica o rótulo de perigo de produtos, etc.).
    ▪ Se preocupa com o bem-estar e segurança das outras crianças, alertando o adulto quando se apercebe que alguma corre perigo.
    ▪ …
   


    O/A educador/a promove estas aprendizagens quando, por exemplo:
    ▪ Dá oportunidade e tempo à criança para realizar as tarefas do dia a dia.
    ▪ Organiza as áreas e materiais da sala, com a participação das crianças, para que se apropriem da utilização do espaço e da localização dos diferentes tipos de material.
    ▪ Observa a utilização do espaço para saber da sua adequação ao grupo e consulta as crianças na sua modificação.
    ▪ Fala com as crianças sobre os momentos da rotina e sobre o que se faz em cada um deles.
    ▪ Facilita as escolhas das crianças, dando-lhes tempo para decidir, apoiando as suas iniciativas para as enriquecer e complexificar.
    ▪ Negoceia as tarefas necessárias à vida do grupo (tratar dos animais, arrumação da sala).
   ▪ Incentiva as crianças a encontrarem as suas formas próprias de resolução de problemas, ajudando-as quando recorrem ao/à educador/a.
   ▪ Sensibiliza as crianças para os problemas de segurança (materiais perigosos, segurança rodoviária, etc.).
   ▪ Tendo em conta o contexto, os interesses e questões colocadas pelas crianças, promove a importância dos hábitos de vida saudável.
    ▪ Envolve as famílias na construção da independência e autonomia, nomeadamente nos cuidados de segurança e saúde.
    ▪ …"

sábado, 21 de julho de 2018

Áreas de Conteúdo - Área de Formação Pessoal e Social - Construção da identidade e da autoestima

"1. Área de Formação Pessoal e Social

    A área de Formação Pessoal e Social é considerada uma área transversal, porque, embora tenha uma intencionalidade e conteúdos próprios, está presente em todo o trabalho educativo realizado no jardim de infância.  Tal deve.se ao facto de esta ser a ver com a forma como as crianças se relacionam consigo próprias, com os outros e com o mundo, num processo de desenvolvimento de atitudes, valores e disposições, que constituem as bases de uma aprendizagem bem-sucedida ao longo da vida e de uma cidadania autónoma, consciente e solidária.
    A área de Formação Pessoal e Social assenta, tal como as outras, no reconhecimento da criança como sujeito e agente do processo educativo, cuja identidade única se constrói em interação social, influenciando e sendo influenciada pelo meio que a rodeia.
    É nos contextos sociais em que vive, nas relações e interações com outros e com o meio que a criança vai construindo referências, que lhe permitem tomar consciência da sua identidade e respeitar a dos outros, desenvolver a sua autonomia como pessoa e como aprendente, compreender o que está certo e errado, o que pode e não pode fazer, os direitos e deveres para consigo e para com os outros, valorizar o património natural e social.
    É nessa inter-relação que a criança vai aprendendo a atribuir valor aos seus comportamentos e atitudes e aos dos outros, reconhecendo e respeitando valores que são diferentes dos seus. A educação pré-escolar tem um papel importante na educação para os valores, que não se “ensinam”, mas se vivem e aprendem na ação conjunta e nas relações com os outros.
    São os valores subjacentes à prática do/a educador/a e o modo como os concretiza no quotidiano do jardim de infância que permitem que a educação pré-escolar seja um contexto social e relacional facilitador da Formação Pessoal e Social. Ao demonstrarem atitudes de tolerância, cooperação, partilha, sensibilidade, respeito, justiça, etc. para com as crianças e adultos (outros profissionais e pais/famílias), os/as educadores/as contribuem para que as crianças reconheçam a importância desses valores e se apropriem deles.
    O desenvolvimento da Formação Pessoal e Social baseia-se na organização do ambiente educativo, construído como um ambiente relacional e securizante, em que a criança é valorizada e escutada, o que contribui para o seu bem-estar e autoestima, e, ainda, como um contexto democrático em que as crianças participam na vida do grupo e no desenvolvimento do processo da aprendizagem.
    O ambiente educativo estará também organizado como um espaço que favorece a educação estética, sendo que a educação pré-escolar proporcionará também múltiplas oportunidades de apreciar a beleza noutros contextos e situações, contactos com a natureza, a paisagem e com a cultura, que favorecem o desenvolvimento do sentido estético. A Formação Pessoal Social contribui, assim, para o desenvolvimento de valores éticos, mas também estéticos.
    A área de Formação Pessoal e Social, tendo conteúdos próprios, está intimamente relacionada com todas as outras áreas de conteúdo, que contribuem ou são uma ocasião para o seu desenvolvimento. Assim, os saberes, a curiosidade e o desejo de aprender das crianças são alargados através do contacto com as diversas manifestações de cultura a que essas áreas correspondem, permitindo, simultaneamente, desenvolver projetos que as mobilizam, de modo articulado e globalizante. 
    Ao participar ativamente no seu processo de aprendizagem, a criança vai mobilizar e integrar um conjunto de experiências, saberes e processos, atribuindo-lhe novos significados e encontrando formas próprias de resolver os problemas, o que lhe permite desenvolver não só a autonomia, mas também a criatividade.
    Dada a transversalidade da área de Formação Pessoal e Social, diversas aprendizagens enunciadas nesta área são retomadas noutras áreas, entendendo-se essas aprendizagens como correspondendo a um processo progressivo que, realizado ao longo da educação pré-escolar, terá continuidade ao longo da vida. Nessas aprendizagens interligadas consideram-se quatro componentes:  

                   ▪ Construção da identidade e da autoestima; 
                   ▪ Independência e autonomia; 
                   ▪ Consciência de si como aprendente; 
                   ▪ Convivência democrática e cidadania.

    Construção da identidade e da autoestima
    
    A construção da identidade passa pelo reconhecimento das características individuais e pela compreensão das capacidades e dificuldades próprias de cada um, quaisquer que estas sejam.
    Nas crianças em idade pré-escolar, a noção do eu está ainda em construção e é influenciada positiva ou negativamente pelo modo como os adultos significativos e as outras crianças a reconhecem.
    A construção da autoestima depende, assim, da forma como os adultos, nomeadamente o/a educador/a, intencionalmente valorizam, respeitam, estimulam a criança e encorajam os seus progressos, pelo modo como apoiam as relações e interações no grupo, para que todas as crianças se sintam aceites e as suas diferenças consideradas como contributos para enriquecer o grupo e não como fonte de discriminação ou exclusão.
    Ser menino ou menina é um aspeto central na construção da identidade e as crianças em idade pré-escolar vão assumindo comportamentos conformes com as expetativas culturais sobre o que é apropriado fazer enquanto membro de um ou de outro grupo, manifestando estereótipos culturais referentes aos homens e às mulheres. Importa que o/a educador/a esclareça estes estereótipos discriminatórios com as crianças, questionando situações que vão ocorrendo na vida do grupo, e que também reflita  sobre as suas atitudes, os materiais, recursos e atividades que propõe.
    Neste processo de construção de identidade e da autoestima, o reconhecimento das características singulares de cada criança desenvolve-se simultaneamente com a perceção do que tem em comum e do que a distingue de outros, pelo que o reconhecimento de laços de pertença social e cultural faz também parte da construção da identidade e da autoestima. Esta construção é apoiada pelo/a educador/a, ao respeitar e valorizar a cultura de cada criança e da sua família.

    Aprendizagens a promover: 
    ▪ Conhecer e aceitar as suas características pessoais e a sua identidade social e cultural, situando-as em relação às de outros. 
      ▪ Reconhecer e valorizar laços de pertença social e cultural.

    Estas aprendizagens podem ser observadas, por exemplo, quando a criança:
    ▪ Identifica as suas características individuais (sexo, idade, nome, etc.), e reconhece semelhanças e diferenças com as características dos outros.
    ▪ Verbaliza as necessidades relacionadas como o seu bem-estar físico (tem fome, tem que ir à casa de banho).
    ▪ Expressa as suas emoções e sentimentos (está triste, contente, etc.) e reconhece também emoções e sentimentos dos outros.
    ▪ Manifesta os seus gostos e preferências (alimentos, locais, jogos, etc.).
    ▪ Mantém e justifica as suas opiniões, aceitando também as dos outros.
    ▪ Demonstra prazer nas suas produções e progressos (gosta de mostrar e de falar do que faz, de comunicar o que descobriu e aprendeu).
    ▪ Revela confiança em experimentar atividades novas, propor ideias e falar em grupo.
    ▪ Aceita algumas frustrações e insucessos (perder ao jogo, dificuldades de realizar atividades e tarefas) sem desanimar, procurando formas de as ultrapassar e de melhorar (pedindo ajuda do/a educador/a ou de outras crianças, ensaiando outras formas de fazer, ou procurando novos materiais).
    ▪ Representa papéis e situações da sua cultura familiar em momentos de jogo dramático.
    ▪ Reconhece a sua pertença a diferentes grupos sociais (família, escola, comunidade, entre outros).
    ▪ Identifica e valoriza traços da sua cultura familiar, mas também os de outras culturas, compreendendo o que têm de comum e de diferente e que as culturas vão evoluindo.
    ▪ …
    O/A educador/a promove estas aprendizagens quando, por exemplo:
    ▪ Valoriza e respeita cada criança, manifestando essa atitude de modo a que constitua um modelo da relação entre crianças.
    ▪ Está atento a cada criança e ao que esta pretende transmitir, verbal ou não verbalmente.
    ▪ Identifica e valoriza o comportamento positivo da criança.
    ▪ Apoia a criança a expressar opiniões sobre o que vê, ouve ou sente.
    ▪ Respeita a diferença e tira proveito da diversidade como meio de enriquecimento do ambiente educativo e do processo de aprendizagem.
    ▪ Manifesta respeito pelas culturas familiares de cada criança, (tendo, por ex., na sala materiais representativos dessas culturas).
    ▪ Promove o sentido de pertença da criança a uma comunidade, facilitando as interações com pessoas e recursos e com o contexto próximo.
    ▪ Alarga as referências culturais das crianças através do contacto com diferentes recursos e formas de cultura.
    ▪ …

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Áreas de Conteúdo

    "Consideram-se as “áreas de conteúdo” como âmbitos de saber, com uma estrutura própria e com pertinência sociocultural, que incluem diferentes tipos de aprendizagem, não apenas conhecimentos, mas também atitudes, disposições e saberes-fazer. Deste modo, a criança realiza aprendizagens com sentido, sendo capaz de as utilizar noutras situações quotidianas, desenvolvendo atitudes positivas face às aprendizagens e criando disposições favoráveis para continuar a aprender.
    O tratamento das diferentes áreas de conteúdo baseia-se nos fundamentos e princípios comuns a toda a pedagogia para a educação de infância, pressupondo o desenvolvimento e a aprendizagem como vertentes indissociáveis do processo educativo e uma construção articulada do saber em que as diferentes áreas serão abordadas de forma integrada e globalizante.
    A perspetiva holística, que caracteriza a aprendizagem da criança e que está subjacente ao brincar, estará também presente na abordagem das diferentes áreas de conteúdo. Ao brincar, as crianças vão-se apropriando de conceitos que lhes permitem dar sentido ao mundo e em que o/a educador/a pode reconhecer o contributo para a aprendizagem de diversos tipos de conhecimento, tais como, a língua, a matemática, as ciências. É esta curiosidade e interesse das crianças por explorar e compreender que dará progressivamente lugar à sua participação no desenvolvimento de projetos de aprendizagem mais complexos, que mobilizam diferentes áreas de conteúdo. Não há, assim, uma oposição, mas uma complementaridade e continuidade, entre o brincar e as aprendizagens a realizar nas diferentes áreas de conteúdo.
    Esta perspetiva de continuidade entre brincar e aprender articula-se com o reconhecimento da criança como sujeito e agente do processo educativo, que lhe garante o direito de ser escutada nas decisões relativas à sua aprendizagem e de participar no desenvolvimento do currículo. No contexto relacional e de interação social do jardim de infância, e partindo das experiências e saberes únicos da criança, considerada como capaz de construir a sua aprendizagem, cada uma aprende e contribui para a aprendizagem e progresso das outras.
    A distinção entre áreas de conteúdo corresponde a uma chamada de atenção para aprendizagens a contemplar, que devem ser vistas de forma articulada, dado que a construção do saber se processa de forma integrada, e há inter-relações entre os diferentes conteúdos, bem como aspetos formativos que lhes são comuns. As áreas de conteúdo são, assim, referências a ter em conta na observação, planeamento e avaliação do processo educativo e não compartimentos estanques a serem abordados separadamente.
    Baseando-se nestes princípios e fundamentos, a designação das áreas de conteúdo apresenta algumas semelhanças com as utilizadas noutros níveis do sistema educativo. Esta designação, com o intuito de favorecer a articulação da educação pré-escolar com o ensino básico e facilitar a comunicação entre educadores e professores, não significa que a educação pré-escolar se deva centrar numa preparação para o 1.º ciclo, mas sim num desenvolvimento de saberes e disposições, que permitam a cada criança ter sucesso, não só na etapa seguinte, mas também na aprendizagem ao longo da vida.
    
    O/A educador/a tem um papel fundamental no processo de aprendizagem de forma a: 
    ▪ articular a abordagem das diferentes áreas de conteúdo e domínios, para que se integrem num processo flexível de aprendizagem que corresponda às suas intenções pedagógicas e que, tendo a participação da criança, faça sentido para ela. Esta articulação poderá partir da escolha de uma “entrada” por uma área ou domínio, para integrar outros;  
    ▪ planear oportunidades de aprendizagem progressivamente mais complexas, tendo em conta o que observa e avalia sobre o desenvolvimento e aprendizagem de cada criança e a evolução do grupo; 
    ▪ apoiar cada criança para que atinja níveis a que não chegaria por si só, facilitando uma aprendizagem cooperada, que dê oportunidade às crianças de colaborarem no processo de aprendizagem umas das outras; 
    ▪ diferenciar o processo de aprendizagem, propondo situações que sejam suficientemente interessantes e desafiadoras para a criança, mas de cuja exigência não resulte desencorajamento e diminuição da autoestima.
    Para clarificar melhor o desenvolvimento e aprendizagem em cada área e a sua articulação com outras, adotou-se uma estrutura global, com adaptações em alguns domínios que fazem parte da Área de Expressão e Comunicação e cujas razões serão explicitadas na introdução a esta área. Assim, cada área contempla:  
    ▪ um texto introdutório, que fundamenta o seu sentido e algumas relações com outras áreas e domínios. Estas articulações, também retomadas ao longo do texto, são apresentadas a título indicativo, cabendo a cada educador/a encontrar outras possibilidades; 
    ▪ especificação de diferentes componentes, que integram o desenvolvimento da área, com indicação das aprendizagens globais a promover em cada uma;  
    ▪ apresentação de exemplos de algumas situações que ilustram a evolução do processo de aprendizagem. Estes exemplos não constituem listas de verificação, nem esgotam as aprendizagens a realizar, constituindo referências para situar a observação do/a educador/a e os progressos das crianças; 
    ▪ exemplos de estratégias, que poderão ser utilizadas pelo/a educador/a para promover essas aprendizagens. Estas são também indicadas a título exemplificativo, cabendo a cada educador/a escolher as mais adequadas ao seu contexto e grupo ou definir outras; 
    ▪ no final, é apresentada uma síntese das aprendizagens a promover em cada componente, seguida de um conjunto de sugestões de reflexão, que o/a educador/a poderá utilizar individualmente ou em conjunto com outros profissionais.
    Esta forma de apresentação tem como finalidade apoiar o/a educador/a na construção e gestão do currículo, não pretendendo ser limitativa das suas opções, práticas e criatividade."